sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Modelos e tendências evolutivas nos sistemas educativos



Os sistemas educativos, enquanto conjugações organizadas e coerentes de elementos, com a finalidade de educar os indivíduos, inseridos em sociedades, são organizados a partir de vetores que configuram os seus princípios orientadores. Os sistemas educativos interagem com as sociedades, ajustando-se sistematicamente à sua evolução, ou devendo ajustar-se à sua evolução. As clivagens entre os sistemas educativos e a sociedades que integram trazem sérias repercussões de vária ordem, nomeadamente no funcionamento da economia.
Os sistemas educativos europeus têm a sua origem no século XIX (Archer,1984), decorrendo das modificações causadas pela Revolução Francesa (educação estatal centralizada) e das lutas sociais em Inglaterra (educação descentralizada). Estes enquadram diferentes tipos de escolas, que vão da escola única (escandinava) à escola polivalente (britânica), passando pela escola de ensino diferenciado (germânica) e pela escola de tronco comum (Europa mediterrânica) (Ramos, 2011). A inserção no mercado de trabalho é valorizada, principalmente em sistemas de tipo diferenciado. Assim, o tipo de escola depende, também, da formação necessária para integrar determinada sociedade e da afinação entre esta e o sistema educativo. A rapidez com que a sociedade do conhecimento vai evoluindo, criando novos contextos de produção, traz dificuldades de ajustamento.
Do ponto de vista organizacional (Formosinho 1986)), os sistemas educativos podem seguir um modelo centralizado, em que as decisões são tomadas no topo da hierarquia e as bases as executam, ou descentralizado, em que há tal autonomia que as bases têm poder decisório, o que facilita a tomada de opções atempada e com conhecimento de causa. Os sistemas educativos centralizados podem, ainda, definir-se segundo diferentes graus de centralização. Assim, a centralização é concentrada quando todas as decisões são tomadas pelo organismo central, ao passo que pode considerar-se desconcentrada quando o poder central delega competências, classificando-se então como originária, fragmentada ou coordenada. Considera-se, em geral, que a descentralização será um sinal de maturidade política e exercício de cidadania.
As novas tecnologias da web social têm vindo a provocar transformações imensas na sociedade contemporânea, através do acesso facilitado e imediato à informação e à partilha de conhecimentos a nível global. Ora, os sistemas educativos têm tido alguma dificuldade em acompanhar a vanguarda tecnológica, o que causa, frequentemente, desmotivação e desinteresse no público-alvo, composto por estudantes que estão muito habituados a utilizar essas mesmas tecnologias fora do contexto escolar. A escola, sendo embora um garante da manutenção de alguma tradição, não deve cortar os laços com a realidade que a circunda, sob pena de se tornar obsoleta. Tendo em consideração que o conceito de educação tem hoje um sentido abrangente, não implicando apenas conteúdos, mas também competências, para além de incluir a formação ao longo da vida, é vital a sua articulação com a “sociedade do conhecimento”, o que implica, entre outros aspetos, o domínio das novas tecnologias. São necessários constantes upgrades, sob pena de se sofrerem desatualizações quase irreversíveis. Deste modo, pode concluir-se que os sistemas educativos estão hoje, mais que nunca, a repensar-se de modo a obviar a obsolescência.
Tem-se verificado uma evolução muito marcada nos últimos anos, embora nem em todas as escolas com a mesma intensidade. Há a consciência de que o novo e o antigo devem harmonizar-se, encontrando-se um ponto de equilíbrio.


Deste modo, surge o blended learning como um método em que confluem diversas técnicas de ensino (ensino a distância, ensino presencial, utilização das TIC – plataformas, facebook, you tube, …) constituindo-se o aluno como elemento central, convidado a construir o seu conhecimento, e a quem se fornece feed back constante (Monteiro. et al. 2013). A técnica a utilizar será sempre a que mais se adequa ao público-alvo e à matéria a tratar, podendo-se fazer as combinações necessárias ao sucesso da aprendizagem. Como implica a ação do aluno constantemente monitorizada e motivada, torna-se capaz de vencer a inércia característica das salas de aula sonolentas. Este método pode, então associar aulas expositivas a trabalhos de grupo, a exercícios ou trabalhos online, ao uso de todos os métodos considerados propícios a uma aprendizagem profícua numa determinada situação. A adequação dos materiais e o papel do professor são de enorme relevância. Nos casos em que recorre com frequência às TIC, este método acaba por ser bem menos oneroso que os restantes. Assim, de acordo com Delors, aprende-se a conhecer, a fazer, a conviver com os outros e a ser. Há, no entanto, que respeitar o direito à diferença e que resguardar os valores identitários. 

Blended Learning: Transforming Classrooms with Technology

sábado, 8 de novembro de 2014

As sociedades contemporâneas e os sistemas educativos


“Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
 Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes elétricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem”
 Álvaro de Campos, “Ode Triunfal” 
 A contemporaneidade caracteriza-se pela evolução vertiginosa, a qual se opera a um ritmo alucinante, mais acelerado que o dos triunfos da técnica cantados na citação em epígrafe (início do século XX), e causadora de ainda maior perplexidade e fascínio. 
A “sociedade do conhecimento” (Calle E Da Silva. 2008) destronou a sociedade industrial, pois o conhecimento tornou-se o motor do desenvolvimento dos países, consubstanciando qualquer estratégia de poder, em substituição das matérias-primas e do capital. A inovação decorrente da evolução das novas tecnologias da comunicação e da informação está na base desta transfiguração, a qual determinou a globalização. 
 Consequentemente, avolumaram-se as disparidades e assimetrias a nível económico e social, evidenciadas pela globalização, que tudo torna público e notório, mesmo o que anteriormente não seria notado. À intensificação da evolução, potenciada pelas mudanças no modo e no fluxo de comunicação nos países desenvolvidos, que permitem a articulação e a conjugação de esforços entre países e organizações, bem como uma maior rapidez na disseminação da informação, contrapõem-se as dificuldades dos que não possuem os requisitos básicos para integrar de forma plena esta sociedade global. Assim, há que considerar os pré-requisitos mencionados por de Calle e Da Silva (2008), referindo Mattelart (2002), a propósito da “democratização do conhecimento”, explicitando que é necessária uma “base” de “conhecimento e experiência” para que os indivíduos sejam capazes de receber o dito conhecimento. 
 Segundo Calle e Da Silva, referindo Callon, a inovação, por outro lado, não exclui a tradição, mas alimenta-se dela. A identidade e o sentido são, por isso, essenciais, principalmente quando se fala de educação. 
A educação, na sociedade do conhecimento, é fator determinante e vital, implicando não apenas uma formação de base, mas a formação ao longo da vida, visto serem necessárias atualizações constantes para que se possa acompanhar o ritmo do desenvolvimento das sociedades, principalmente no que diz respeito às novas tecnologias e aos avanços das ciências. 
 Os sistemas educativos, como a etimologia da própria designação indica, têm como finalidade essencial o estabelecimento de relações, de laços.
 Segundo Ramos (2007), a educação tem como primeiro objetivo “o desenvolvimento do ser humano na sua dimensão social”, sublinhando a relevância das vertentes tecnológica e científica. 
 Os sistemas educativos não se concebem, nos tempos que correm, divorciados da tecnologia, sob pena de a escola se tornar obsoleta. Assim, veja-se o desempenho de muitas universidades que são, devido às sinergias que desenvolvem, motores do conhecimento, trabalhando frequentemente em parcerias com instituições congéneres ou outras. E o poder decorre do conhecimento. 
Constitui, por outro lado, preocupação relevante a questão da equidade, já que existem variáveis que não permitem a inclusão plena, quer das sociedades menos desenvolvidas, incapazes de utilizar as ferramentas científicas e tecnológicas com proficiência, quer do universo feminino, pois existem sociedades em que a educação é ainda vedada à mulher. O modelo educativo único, remanescente em algumas sociedades, funciona também como um constrangimento ao desenvolvimento pleno e harmonioso do indivíduo. 
 Os sistemas educativos, tendo como finalidade a formação do indivíduo e o seu desenvolvimento ao longo da vida (sabendo-se que devem ter como referência o mundo global e não apenas uma cidade ou um país), devem integrar a sociedade do conhecimento, nomeadamente no que se refere à utilização das novas tecnologias, facilitadoras da pesquisa e da difusão do conhecimento. Só assim potenciarão o desenvolvimento dos países e dos indivíduos enquanto elementos de um universo global. 
No nosso país, de acordo com a lei de bases do sistema educativo português, este deverá ter em vista o desenvolvimento harmonioso do indivíduo, privilegiando a responsabilidade, a autonomia e a solidariedade e valorizando a dimensão do trabalho (Lei nº 49/2005, de 30 de agosto). 
 No documento em que se definem os quatro “pilares” da educação configurados por Delors, isto é, o aprender a conhecer (compreensão), aprender a fazer (agir sobre o meio), aprender a viver juntos (cooperação) e aprender a ser, de modo global, preconiza-se também o desenvolvimento do indivíduo em todas as vertentes. 
Tendo, então, os sistemas educativos a finalidade de facilitar a integração dos indivíduos na sociedade do conhecimento, que é aquela em que todos vivemos, devem os métodos utilizados promover a autonomia na construção do saber, e a cooperação, no sentido em que a conjugação de esforços é sempre profícua e enriquecedora, não esquecendo o reforço das vertentes ética e moral, as quais, em princípio, estariam implícitas, mas que são, por vezes, relegadas para segundo plano. Integrando o sistema, figuram, a par de professores e alunos, os pais e encarregados de educação, bem como a comunidade educativa, tendo sempre em linha de conta o contexto global. 
As modificações e adaptações necessárias à criação de laços mais profundos entre o sistema educativo e a sociedade em que se enquadra está em processo de operacionalização, no que a Portugal diz respeito. A heterogeneidade dos intervenientes no processo leva a que este decorra de modos diversos. Existe ainda alguma relutância e falta de naturalidade na utilização das tecnologias da comunicação por parte de alguns professores, o que traz constrangimentos vários, os quais poderão ser ultrapassados através do trabalho cooperativo e da formação de docentes.
 Em suma, o esforço a desenvolver pelos sistemas educativos para acompanhar a evolução social e tecnológica é significativo, principalmente se tivermos em conta que as medidas tomadas, no que à educação diz respeito, demoram consideravelmente a produzir o efeito pretendido.
 Referências: 
Calle, D.; A., G.; Da Silva, E. (2008). "Inovação no contexto da sociedade do conhecimento", in Revista TEXTOS de la CiberSociedad, Nº 8 - Temática Variada (Características da sociedade do conhecimento). http://www.cibersociedad.net/textos/articulo.php?art=160.
 Ramos, C. (2007). Aspectos contextuais dos Sistemas Educativos. Lisboa: Universidade Aberta. Delors,J., Al-Mufti, I., Amagi, I., Carneiro, R., Chung, F., Geremek, B., w tal (1998)- Educação Um Tesouro a Descobrir- Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. Porto: Edições ASA.