sábado, 8 de novembro de 2014

As sociedades contemporâneas e os sistemas educativos


“Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
 Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes elétricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem”
 Álvaro de Campos, “Ode Triunfal” 
 A contemporaneidade caracteriza-se pela evolução vertiginosa, a qual se opera a um ritmo alucinante, mais acelerado que o dos triunfos da técnica cantados na citação em epígrafe (início do século XX), e causadora de ainda maior perplexidade e fascínio. 
A “sociedade do conhecimento” (Calle E Da Silva. 2008) destronou a sociedade industrial, pois o conhecimento tornou-se o motor do desenvolvimento dos países, consubstanciando qualquer estratégia de poder, em substituição das matérias-primas e do capital. A inovação decorrente da evolução das novas tecnologias da comunicação e da informação está na base desta transfiguração, a qual determinou a globalização. 
 Consequentemente, avolumaram-se as disparidades e assimetrias a nível económico e social, evidenciadas pela globalização, que tudo torna público e notório, mesmo o que anteriormente não seria notado. À intensificação da evolução, potenciada pelas mudanças no modo e no fluxo de comunicação nos países desenvolvidos, que permitem a articulação e a conjugação de esforços entre países e organizações, bem como uma maior rapidez na disseminação da informação, contrapõem-se as dificuldades dos que não possuem os requisitos básicos para integrar de forma plena esta sociedade global. Assim, há que considerar os pré-requisitos mencionados por de Calle e Da Silva (2008), referindo Mattelart (2002), a propósito da “democratização do conhecimento”, explicitando que é necessária uma “base” de “conhecimento e experiência” para que os indivíduos sejam capazes de receber o dito conhecimento. 
 Segundo Calle e Da Silva, referindo Callon, a inovação, por outro lado, não exclui a tradição, mas alimenta-se dela. A identidade e o sentido são, por isso, essenciais, principalmente quando se fala de educação. 
A educação, na sociedade do conhecimento, é fator determinante e vital, implicando não apenas uma formação de base, mas a formação ao longo da vida, visto serem necessárias atualizações constantes para que se possa acompanhar o ritmo do desenvolvimento das sociedades, principalmente no que diz respeito às novas tecnologias e aos avanços das ciências. 
 Os sistemas educativos, como a etimologia da própria designação indica, têm como finalidade essencial o estabelecimento de relações, de laços.
 Segundo Ramos (2007), a educação tem como primeiro objetivo “o desenvolvimento do ser humano na sua dimensão social”, sublinhando a relevância das vertentes tecnológica e científica. 
 Os sistemas educativos não se concebem, nos tempos que correm, divorciados da tecnologia, sob pena de a escola se tornar obsoleta. Assim, veja-se o desempenho de muitas universidades que são, devido às sinergias que desenvolvem, motores do conhecimento, trabalhando frequentemente em parcerias com instituições congéneres ou outras. E o poder decorre do conhecimento. 
Constitui, por outro lado, preocupação relevante a questão da equidade, já que existem variáveis que não permitem a inclusão plena, quer das sociedades menos desenvolvidas, incapazes de utilizar as ferramentas científicas e tecnológicas com proficiência, quer do universo feminino, pois existem sociedades em que a educação é ainda vedada à mulher. O modelo educativo único, remanescente em algumas sociedades, funciona também como um constrangimento ao desenvolvimento pleno e harmonioso do indivíduo. 
 Os sistemas educativos, tendo como finalidade a formação do indivíduo e o seu desenvolvimento ao longo da vida (sabendo-se que devem ter como referência o mundo global e não apenas uma cidade ou um país), devem integrar a sociedade do conhecimento, nomeadamente no que se refere à utilização das novas tecnologias, facilitadoras da pesquisa e da difusão do conhecimento. Só assim potenciarão o desenvolvimento dos países e dos indivíduos enquanto elementos de um universo global. 
No nosso país, de acordo com a lei de bases do sistema educativo português, este deverá ter em vista o desenvolvimento harmonioso do indivíduo, privilegiando a responsabilidade, a autonomia e a solidariedade e valorizando a dimensão do trabalho (Lei nº 49/2005, de 30 de agosto). 
 No documento em que se definem os quatro “pilares” da educação configurados por Delors, isto é, o aprender a conhecer (compreensão), aprender a fazer (agir sobre o meio), aprender a viver juntos (cooperação) e aprender a ser, de modo global, preconiza-se também o desenvolvimento do indivíduo em todas as vertentes. 
Tendo, então, os sistemas educativos a finalidade de facilitar a integração dos indivíduos na sociedade do conhecimento, que é aquela em que todos vivemos, devem os métodos utilizados promover a autonomia na construção do saber, e a cooperação, no sentido em que a conjugação de esforços é sempre profícua e enriquecedora, não esquecendo o reforço das vertentes ética e moral, as quais, em princípio, estariam implícitas, mas que são, por vezes, relegadas para segundo plano. Integrando o sistema, figuram, a par de professores e alunos, os pais e encarregados de educação, bem como a comunidade educativa, tendo sempre em linha de conta o contexto global. 
As modificações e adaptações necessárias à criação de laços mais profundos entre o sistema educativo e a sociedade em que se enquadra está em processo de operacionalização, no que a Portugal diz respeito. A heterogeneidade dos intervenientes no processo leva a que este decorra de modos diversos. Existe ainda alguma relutância e falta de naturalidade na utilização das tecnologias da comunicação por parte de alguns professores, o que traz constrangimentos vários, os quais poderão ser ultrapassados através do trabalho cooperativo e da formação de docentes.
 Em suma, o esforço a desenvolver pelos sistemas educativos para acompanhar a evolução social e tecnológica é significativo, principalmente se tivermos em conta que as medidas tomadas, no que à educação diz respeito, demoram consideravelmente a produzir o efeito pretendido.
 Referências: 
Calle, D.; A., G.; Da Silva, E. (2008). "Inovação no contexto da sociedade do conhecimento", in Revista TEXTOS de la CiberSociedad, Nº 8 - Temática Variada (Características da sociedade do conhecimento). http://www.cibersociedad.net/textos/articulo.php?art=160.
 Ramos, C. (2007). Aspectos contextuais dos Sistemas Educativos. Lisboa: Universidade Aberta. Delors,J., Al-Mufti, I., Amagi, I., Carneiro, R., Chung, F., Geremek, B., w tal (1998)- Educação Um Tesouro a Descobrir- Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. Porto: Edições ASA.

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