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dos sistemas educativos
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Causas da evolução na regulação dos sistemas educativos
No
contexto europeu, a questão da regulação dos sistemas educativos, prendendo-se
embora com as políticas que enformam o sistema educativo de cada país, tende a
tentar estabelecer uma ponte entre os vários métodos de regulação, notando-se
uma visível tentativa de se chegar a um denominador comum, embora de âmbito
alargado.
A propósito do conceito de regulação, estabelece
Barroso (2005) uma interessante diferenciação entre regulação e regulamentação,
que chama a atenção para o carácter mais abrangente do primeiro conceito, que
não se constrange ao controle do cumprimento de regras que define a
regulamentação. Em educação, afirma ainda o mesmo autor que a regulação tem
como finalidade primeira medir a eficiência e eficácia do sistema como modo de
permitir introduzir melhorias sistemáticas a partir da deteção de pontos
fracos.
Enunciando
uma definição de regulação comummente aceite, escreve Almeida (2005:3), citando
Diebolt (2001),“a regulação é muito simplesmente aquilo que permite ao
sistema funcionar e se transformar” e neste sentido, “permite
compreender como e porquê um conjunto de elementos, de acções ou de indivíduos
se organizam no seio de uma entidade global com o fim de prosseguir uma certa
finalidade”.
Barroso (2005) parte do mesmo pressuposto,
explicitando ainda, de acordo com Bauby (2001), que a regulação de um grupo
social decorrerá de um jogo de forças entre o interesse geral do grupo e os
interesses pessoais de cada um dos seus elementos. São ainda diferenciadas por
Barroso (2005) três dimensões essenciais da regulação, segundo Reynaud (1997 e
2003): a regulação institucional, com carácter normativo e funções de controlo;
a regulação situacional, ativa e
autónoma, que parte da produção de
regras do jogo, reajustando-as quando necessário; e a regulação conjunta, que
consiste na interação entre as duas primeiras.
O
advento dos princípios neoliberais no contexto europeu produziu, segundo Dale
(2008), transformações significativas a nível dos sistemas educativos, já que o
papel interventivo do estado foi consideravelmente reduzido, não obstante não
ter abdicado do seu papel regulador.
A
relevância dada ao mercado teve repercussões na educação, já que o emprego
implica um determinado perfil de formação. De acordo com Boaventura Sousa
Santos (2004), citado por Dale (2008:14), “O
Estado deixou de ser a agência de controlo das articulações entre os três
pilares da regulação moderna (Estado, mercado e comunidade), para se tornar
servidor do mercado e redesenhar a comunidade para se tornar no mesmo”.
Assim, minimiza-se o papel do estado na economia, o que produz consequências no
financiamento da educação.
A
governação da educação deixa de ser, por outro lado, monopólio do estado, dada
a emergência de organizações internacionais que detêm uma influência
determinante e integradora, se o pudermos dizer assim.
As
instâncias internacionais fundamentam, segundo Dale (2008) a sua intervenção na
necessidade de homogeneizar a educação de modo a promover a “igualdade
individual e progresso colectivo” (Meyer, 2001). No entanto, não é ingénua a
relação entre a defesa da modernidade e o capitalismo, pois as competências
diversificadas requeridas pelo progresso económico interferem nitidamente nos
sistemas.
Por
outro lado, a “gramática da escola” (Dale, 2008:17) está perfeitamente
interiorizada pelas sociedades ocidentais, recorrendo os estados-nação aos
sistemas educativos para afirmarem a sua identidade nacional e as suas
tradições. Não obstante, apesar de os sistemas educativos terem sofrido metamorfoses
sistemáticas, numa tentativa de acompanhar a competitividade, já numa lógica
europeia e considerando a iniciativa privada a par do estado, “não há uma
concepção comum sobre os fins da educação, como também não há uma melhor forma
de os prosseguir, caso venham a ser identificados” (Dale, 2008: 18). Assim,
instaura-se a necessidade de encontrar ferramentas fiáveis para avaliar a educação,
medindo a sua eficácia, constatando-se que o seu contributo no âmbito da
competitividade e da economia do conhecimento e aprendizagem ao longo da vida
não é o desejável. Os fins e os meios destes sistemas educativos, de acordo com
instâncias internacionais reconhecidas, necessitam de transformações profundas,
no sentido de que se promova uma educação personalizada, que se abram as
escolas a todos, generalizando-se o uso das novas tecnologias.
Aponta
Dale (2008: 21) três fases de desenvolvimento de um Espaço Europeu de Educação
(EEE): a fase 1- “Pré-Lisboa”, em que havia a finalidade de se chegar a uma
“concepção comum de educação”; a fase 2 – “Lisboa 2000/2005”, que já preconiza
a identificação de problemas, numa coordenação política comum, mas com meios
diversos; a fase três, designada “Lisboa pós revisão de médio prazo”, que defende
objetivos comuns e uma via comum. A Europa passa a ter um papel central.,
aproveitando os pontos fracos da situação para gerar uma estratégia que promove
a qualidade como finalidade primeira, passando a definir-se objetivos de modo
cooperativo a partir de 2000. Os pressupostos de avaliação são de cunho
essencialmente técnico, numa tentativa de combinar a construção da unidade
europeia com a viabilização da diversidade nacional.
Deste
modo, no sentido da construção do EEE, o Método Aberto de Coordenação (MAC) vem
tentar resolver um impasse político decorrente das limitações da regulação e do
consenso: “Prometia consegui-lo sobretudo pela possibilidade que oferecia de
gerar convergência regional com diversidade nacional”(Dale, 2008, 23). A
instituição internacional de benchmarks
de desempenho (boas práticas) constitui uma ferramenta política utilizada no
alinhamento supranacional, permitindo a apresentação, sob um ponto de vista
técnico, de opções a que subjaz uma negociação de índole política, alargando o timing de resposta aos problemas e
deslocando o centro decisor. Assim, a decisão política na EU foi “transformada em matéria de resolução técnica de
problemas entre parceiros no sistema e não no resultado da resolução
política de conflitos políticos entre diferentes interesses.”
(Dale, 2008: 26), numa lógica de proscrição ao invés de prescrição.
A avaliação do progresso da agenda de Lisboa concluiu que os
resultados não podiam ser considerados satisfatórios, optando-se por
redirecionar os objetivos e formulando-se um programa de aprendizagem ao longo
da vida, considerada em 2010 condição essencial para se alcançarem os objetivos
de Lisboa, numa lógica de reforço do modelo social europeu. A acrescer aos
princípios e referenciais comuns, foi criado o “Grupo de Coordenação e Educação
2010”, no seio do qual interagem representantes ministeriais e parceiros
sociais, para além da adoção de novas metodologias, sustentadas em “clusters de países centrados em questões
essenciais” (Dale, 2008: 27). Dale (2008) sublinha a relevância dada à
aprendizagem ao longo da vida, alçada a referência do programa de trabalho da EU,
retomando os procedimentos que sucederam à II Guerra Mundial, mas consistindo
agora no grande argumento de resposta aos desafios da globalização.
A avaliação dos sistemas educativos europeus tem vindo, em virtude
das deliberações e recomendações emanadas pela União Europeia, que estabeleceu
como meta estabelecer-se como espaço de referência a nível da educação, defendendo
a articulação de políticas a partir de pressupostos considerados técnicos, a
sofrer uma evolução significativa. Se, inicialmente, se verificava que nos
países com sistema educativo descentralizado o peso da avaliação externa das instituições
se traduzia na reputação da escola em causa, trazendo consequências óbvias em
termos de procura pelo público estudantil, nos países em que o peso da escola
pública é ainda preponderante e existe uma forte centralização, os efeitos da
avaliação externa não tem tido grande efeito. No entanto, esta situação tem
vindo a evoluir, sendo que, em Portugal, os efeitos da avaliação externa se
refletem em vantagens concedidas pela tutela a nível de créditos horários, para
além da divulgação dos resultados que poderá influenciar a procura. As práticas
de avaliação interna das escolas também têm vindo a ser incentivadas, no
sentido de levar as instituições a refletir sobre como poderão melhorar o
serviço educativo.
Os critérios de eficiência e eficácia, na avaliação externa em
Portugal, têm em consideração os padrões europeus. Podemos afirmar, também, que,
nos países em que o ensino privado tem uma representatividade maior, a
regulação, por parte do estado e por influência das decisões comunitárias, tem vindo
reforçar-se.
Referências
bibliográficas:
ALMEIDA, A. (2005). "Noção de Regulação e
Modos de Regulação da Educação", in Os fluxos escolares dos alunos como
analisador dos modos de regulação local do Sistema Educativo (Dissertação de
Mestrado). Lisboa: FPCE.
BARROSO,
J. (2005). "O Estado, a Educação e a Regulação das Políticas
Públicas", in Educ. Soc., Campinas, vol. 26, n. 92, pp. 725-751, Especial
Outubro. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/es/v26n92/v26n92a02.pdf.
DALE,
R. (2008). "Construir a Europa através de um Espaço Europeu de
Educação", in Revista Lusófona de Educação, 2008, 11, pp. 13-30. Lisboa:
Centro de Estudos e Intervenção em Educação e Formação (CeiEF) da Universidade
Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Disponível em http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/rle/n11/n11a02.pdf.
RAMOS,
C. (2001). "Regulação dos Sistemas Educativos - O Caso Português", in
Os processos de autonomia e descentralização à luz das teorias de regulação
social: o caso das políticas públicas de Educação em Portugal (Tese de
Doutoramento). Monte de Caparica: FCT/UNL. Disponível em http://hdl.handle.net/10362/1009.
ROGGERO,
P. (2002). "Avaliação dos sistemas educativos nos países da União
Europeia: de uma necessidade problemática a uma prática complexa
desejável", in EccoS Rev. Cient. nº 2, v. 4, pp.31-46. São Paulo: UNINOVE.
Disponível em http://redalyc.uaemex.mx/pdf/715/71540203.pdf.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Nós e a Europa
A globalização decorrente de evolução tecnológica que está
na base da “sociedade do conhecimento” implica a consciencialização política da
necessidade de adequar os sistemas educativos ao contexto social, económico e
cultural.
No sentido de acompanhar o evoluir da sociedade global, que
não se compadece com fronteiras, a União Europeia, dada a livre circulação e
interdependência económica do espaço comunitário, sentiu a necessidade de
ajustar os sistemas educativos dos países que a integram, internacionalizando-os.
Deste modo, foi definida em 2000, no Conselho Europeu
realizado em Lisboa, a designada “Estratégia de Lisboa”, enunciando-se a
finalidade de reforçar a importância atribuída à educação e ao seu papel no
desenvolvimento global, visando a adaptação dos sistemas de educação e formação
europeus à sociedade do conhecimento.
Na sequência desta iniciativa, diversos documentos foram
sendo publicados, destacando-se, entre outros o Relatório do Conselho Europeu de
Estocolmo, em Março de 2001, sobre “Os objectivos futuros concretos dos
sistemas de educação e formação”; o “Programa pormenorizado sobre o seguimento
dos objectivos dos sistemas de educação e formação na Europa, da
responsabilidade do Conselho Europeu de Barcelona, em março de 2002; o
relatório intercalar conjunto “Programa de Trabalho Educação e Formação 2010”
do Conselho Europeu de Bruxelas, em março de 2004.
Da estratégia concertada, abrangendo todos os países da
União, apesar da diversidade dos modelos de sistemas educativos que integram, ressaltam
três objetivos primordiais, a atingir atá 2010:
- “Aumentar a qualidade e eficácia dos sistemas de formação e educação na União Europeia”;
- “Facilitar o acesso de todos aos sistemas de educação e formação”;
- “Abrir ao mundo exterior os sistemas de educação e de formação”.
Segundo Ramos (2012: 126), as reformas não se querem
imediatas, mas prevê-se uma realização gradual, de acordo com o espírito
solidário europeu. E muitas delas fazem já sentir o seu efeito.
Pretende-se, através desta estratégia, o reconhecimento da
Europa no contexto mundial, enquanto espaço de qualidade e relevância no que
concerne às instituições de educação e formação, estabelecendo-se como
referência os espaços considerados mais bem sucedidos a nível mundial, como os
Estados Unidos e o Japão. Estabeleceram-se uma série de indicadores que os
diferentes estados europeus vão tentando atingir, à medida das suas
possibilidades. A avaliação dos resultados, deve efetuar-se de acordo com os
mesmos pressupostos em toda a União. Veja-se o “Estado da Educação 2013”, da
autoria do Conselho Nacional de Educação (CNE) e os quadros comparativos que
apresenta.
No sentido de prosseguir esta finalidade, dá-se realce à
profissão docente e à sua caracterização, à
diversidade de formações daqueles que acedem à profissão, à formação contínua,
nomeadamente à aquisição de novas competências no que concerne às TIC, às
línguas estrangeiras, à troca de experiências, à divulgação de boas práticas, à
melhoria das condições de trabalho (que não se verifica), ao sistema de
promoções.
No acima mencionado “Estado da Educação 2013” refere-se a
provecta média de idades dos docentes portugueses, pormenor preocupante. Menciona-se
o acréscimo de despesa que implicam profissionais em escalões muito elevados,
bem como a necessidade de lhes proporcionar formação contínua. Por outro lado,
é patente, também, o facto de, no que respeita às habilitações apresentadas, se
ter verificado um aumento percentual de docentes com grau de mestre e doutoramento.
É um facto que a “reciclagem” do corpo docente,
particularmente no que respeita ao uso proficiente das novas tecnologias, ainda
é algo incipiente em Portugal; no entanto, muito se tem avançado. Mais
preocupante será o facto de as metodologias não se terem vindo a atualizar, em
muitos casos, de modo a articular a consistência da erudição tradicional com
pedagogias mais centradas no aluno.
Por outro lado, o enfoque nos professores tem, no entanto, a
formação do aluno como grande objetivo, considerando-se primordial desenvolver
a numeracia e literacia, as competências essenciais em ciências, matemática e
tecnologias, o domínio de línguas estrangeiras, o “aprender a aprender”,
competências sociais, o empreendedorismo e a cultura geral. Em Portugal, os resultados
obtidos pelos alunos não são ainda os desejáveis, embora possa registar-se uma
evolução positiva. É necessário, então, desenvolver as competências necessárias
à sociedade do conhecimento.
A validação de competências, algumas delas em contexto de trabalho,
tem também vindo a ser promovida, ou já o foi. A educação e alfabetização de
adultos é também importante, sendo que neste aspeto ainda há caminho a
percorrer, sendo particularmente difícil convencer as camadas menos favorecidas da população de que a educação pode marcar a diferença nas suas vidas.
Em terceiro lugar, para assegurar que todos tenham acesso às
tecnologias da informação e comunicação, já muitas iniciativas tiveram lugar,
desde a formação de professores em competências digitais à criação de
disciplinas no secundário, e depois no ensino básico, que habilitassem os jovens
a dominar com alguma mestria as referidas tecnologias.
Note-se que uma utilização proficiente das TIC por parte dos
docentes não é ainda muito comum nas escolas portuguesas, há frequentemente um
uso inadequado, porque exagerado e despropositado, outras vezes não se usam
quaisquer tecnologias inovadoras por questão de princípio ou por insegurança.
Seria interessante que existissem mais trocas de experiências a este respeito.
A utilização conjugada de diversas metodologias parece-me o mais adequado e
motivador para os alunos.
É de sublinhar que, após o equipamento sistemático das
escolas com material informático, não se tem verificado grande cuidado com a
manutenção e atualização do mesmo.
No que respeita ao aumento do número de pessoas a frequentar
cursos técnicos e científicos, em Portugal tem-se registado um aumento
significativo de estudantes a optar por cursos profissionais ou por institutos
politécnicos, o que indica que pretendem preparar-se para o desempenho de
funções na vida ativa. O que não se verifica, por vezes, é uma articulação
entre os cursos proporcionados e as saídas profissionais disponíveis, o que, em
termos sociais, vem trazer grandes assimetrias.
A otimização da utilização dos recursos disponíveis implica
uma gestão eficiente dos mesmos, podendo proceder-se a protocolos e parcerias
entre instituições, como acontece em Portugal, por exemplo, no âmbito dos
contratos de autonomia das escolas secundárias, que estabelecem parcerias com
instituições, algumas delas de ensino superior, que lhes facultam formação.
A autoavaliação prevista é de extrema importância, pois
permite verificar as lacunas a preencher e os pontos fracos a resolver.
O segundo objetivo estratégico, facilitar o acesso de todos
aos sistemas de educação e de formação, aponta para a aprendizagem ao longo da
vida como finalidade principal. Tem em vista permitir não apenas a atualização e
aquisição de novas competências a pessoas que possuem determinada profissão,
mas permite também o acesso a qualquer outra área, o que se justifica quando
determinadas profissões deixam de existir.
O acesso de todos às ferramentas que permitam a integração
na sociedade do conhecimento implica uma grande flexibilidade e variedade de
recursos, através de toda uma rede de instituições que o possibilitem e que
validem os esforços e saberes já alcançados ao longo da vida.
Em Portugal, embora se verifiquem avanços, há ainda uma
percentagem significativa da população sem qualquer formação. Por outro lado,
dada a crise em que vivemos, a aquisição de novas competências, embora por
vezes proporcionada, nem sempre é aproveitada.
Urge, então, tornar a aprendizagem mais atrativa e
consciencializar as pessoas de que lhes é importante aprenderem ao longo da
vida, mesmo que as vantagens económicas não sejam imediatas. Para tal, é muito
importante a forma como se processa a aprendizagem, a adequação dos conteúdos e
os métodos utilizados. Afinal, tudo acaba por se relacionar com o papel do
professor, a nível micro.
As instituições de ensino a distância vieram oferecer um
leque de escolhas que facilita a vida de quem tem pouco tempo disponível mas
quer aperfeiçoar ou dilatar os seus conhecimentos numa determinada área.
É relevante também a cidadania ativa, por isso as escolas
promovem frequentemente uma nova disciplina, “Educação para a cidadania” para
além da promoção dos valores de cidadania inerentes a muitos dos programas,
nomeadamente nos de Português. As questões de igualdade também devem ser
preservadas e é cada vez em maior grau a atenção que lhes é prestada. No entanto, continuam a manifestar-se, em muitos contextos por essa Europa fora, atitudes de discriminação lamentáveis.
Os grupos mais desfavorecidos devem ser incentivados a
adquirir educação formal, o que por vezes não é tarefa fácil, embora estejam
sistematizados, em Portugal, os procedimentos a efetuar em casos de abandono
escolar.Os números falam por si.
O objetivo estratégico número 3 implica o reforço das
ligações com o mundo do trabalho, a investigação e a sociedade em geral.
No que respeita a este assunto, se, por um lado, há
instituições e parcerias muito bem conseguidas, há, por outro lado,
instituições de ensino superior, ou até cursos profissionais do secundário que
formam estudantes que podem considerar-se sérios candidatos ao desemprego, o
que traz, como já se afirmou, graves consequências sociais. A aprendizagem de
uma ou mais línguas estrangeiras vem permitir uma mobilidade que pode, por
vezes, resolver alguns problemas. E tem provado ser uma mais-valia nos últimos tempos!
Em segundo lugar, pretende-se a garantia da compatibilidade
entre os diferentes sistemas educativos europeus, de tal forma que os cidadãos
possam transitar de um sistema para outro, usufruindo das mais-valias de cada
um e enriquecendo a sua experiência. Neste sentido, tomaram-se iniciativas,
como o processo de Bolonha, compatibilizando-se os graus de certificação das
instituições de ensino superior, bem como as unidades de crédito que configuram
os diferentes cursos oferecidos. A tal resolução juntam-se os programas de
intercâmbio universitário, como o “Erasmus”, para além de outras iniciativas,
como parcerias com estabelecimentos de ensino de diferentes países. A larga
escala a que os nossos quadros jovens têm emigrado nos últimos anos é uma prova
de que o ensino superior tem evoluído. Algumas das nossas universidades detêm já uma reputação de
nomeada no cômputo internacional, embora deva registar-se o número imenso de
jovens licenciados e mestres no desemprego, provavelmente porque não existe
ainda a articulação desejável entre o mundo do ensino superior e as
necessidades da economia.
Por último, pretende-se o reforço da cooperação europeia
como única forma de tornar eficazes grande parte destas iniciativas, a não se
verificar uma ação conjugada ou caso esta se manifeste ineficaz nada será
conseguido. Os indicadores para medir a eficácia de todas estas medidas
permitem ajuizar do grau de prossecução dos objetivos.
Em conclusão, todo este programa de intenções tem vindo a
ser posto em prática, sendo de sublinhar que existem ainda muitas questões por
resolver. Problemas como a iliteracia e a solução de questões matemáticas vêm
provar que há um longo caminho a percorrer.
O desemprego traz também questões relacionadas com a coesão
social por vezes não muito fáceis de solucionar, pois as pessoas não têm muitas
vezes autonomia e vontade suficientes para encarar a aquisição de competências
diferentes como uma mais-valia e não uma desvantagem.
Julgo que o mais importante será conseguir-se uma mudança de
mentalidades. O enfoque na educação ao longo da vida justifica-se plenamente, quer pelo envelhecimento da população, quer pela necessidade de reconversão profissional, quer pela necessidade que as pessoas sentem de se valorizar e adquirir novas competências. Um sinal de importância que tal conceito nos trouxe será o êxito incontestável que vão tendo as universidades da 3ª idade.
Conselho Nacional da Educação, "Estado da Educação 2013".
Jornal Oficial da União Europeia. "Recomendação do Parlamento Europeu e do Conselho de 18 de dezembro de 2006 sobre as competências essenciais para a aprendizagem ao longo da vida".
Jornal Oficial das Comunidades Europeias.2002,"Programa de trabalho pormenorizado sobre o seguimento dos objectivos dos sistemas de educação e de formação na Europa".
Ramos, Conceição Castro. "Estratégia de Lisboa - Programa de Trabalho "Educação e Formação 2010"".
Ramos, Conceição Castro. 2012, Os sistemas educativos da União Europeia, Lisboa:Universidade Aberta.
domingo, 21 de dezembro de 2014
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Modelos e tendências evolutivas nos sistemas educativos
Os sistemas
educativos, enquanto conjugações organizadas e coerentes de elementos, com a
finalidade de educar os indivíduos, inseridos em sociedades, são organizados a
partir de vetores que configuram os seus princípios orientadores. Os sistemas
educativos interagem com as sociedades, ajustando-se sistematicamente à sua
evolução, ou devendo ajustar-se à sua evolução. As clivagens entre os sistemas
educativos e a sociedades que integram trazem sérias repercussões de vária
ordem, nomeadamente no funcionamento da economia.
Os sistemas
educativos europeus têm a sua origem no século XIX (Archer,1984), decorrendo
das modificações causadas pela Revolução Francesa (educação estatal
centralizada) e das lutas sociais em Inglaterra (educação descentralizada).
Estes enquadram diferentes tipos de escolas, que vão da escola única
(escandinava) à escola polivalente (britânica), passando pela escola de ensino
diferenciado (germânica) e pela escola de tronco comum (Europa mediterrânica)
(Ramos, 2011). A inserção no mercado de trabalho é valorizada, principalmente
em sistemas de tipo diferenciado. Assim, o tipo de escola depende, também, da
formação necessária para integrar determinada sociedade e da afinação entre
esta e o sistema educativo. A rapidez com que a sociedade do conhecimento vai
evoluindo, criando novos contextos de produção, traz dificuldades de
ajustamento.
Do ponto de
vista organizacional (Formosinho 1986)), os sistemas educativos podem seguir um
modelo centralizado, em que as decisões são tomadas no topo da hierarquia e as
bases as executam, ou descentralizado, em que há tal autonomia que as bases têm
poder decisório, o que facilita a tomada de opções atempada e com conhecimento
de causa. Os sistemas educativos centralizados podem, ainda, definir-se segundo
diferentes graus de centralização. Assim, a centralização é concentrada quando
todas as decisões são tomadas pelo organismo central, ao passo que pode
considerar-se desconcentrada quando o poder central delega competências,
classificando-se então como originária, fragmentada ou coordenada. Considera-se,
em geral, que a descentralização será um sinal de maturidade política e
exercício de cidadania.
As novas
tecnologias da web social têm vindo a provocar transformações imensas na
sociedade contemporânea, através do acesso facilitado e imediato à informação e
à partilha de conhecimentos a nível global. Ora, os sistemas educativos têm
tido alguma dificuldade em acompanhar a vanguarda tecnológica, o que causa,
frequentemente, desmotivação e desinteresse no público-alvo, composto por
estudantes que estão muito habituados a utilizar essas mesmas tecnologias fora
do contexto escolar. A escola, sendo embora um garante da manutenção de alguma
tradição, não deve cortar os laços com a realidade que a circunda, sob pena de
se tornar obsoleta. Tendo em consideração que o conceito de educação tem hoje
um sentido abrangente, não implicando apenas conteúdos, mas também
competências, para além de incluir a formação ao longo da vida, é vital a sua
articulação com a “sociedade do conhecimento”, o que implica, entre outros
aspetos, o domínio das novas tecnologias. São necessários constantes upgrades, sob pena de se sofrerem
desatualizações quase irreversíveis. Deste modo, pode concluir-se que os
sistemas educativos estão hoje, mais que nunca, a repensar-se de modo a obviar a
obsolescência.
Tem-se
verificado uma evolução muito marcada nos últimos anos, embora nem em todas as
escolas com a mesma intensidade. Há a consciência de que o novo e o antigo
devem harmonizar-se, encontrando-se um ponto de equilíbrio.
Deste modo,
surge o blended learning como um
método em que confluem diversas técnicas de ensino (ensino a distância, ensino presencial,
utilização das TIC – plataformas, facebook,
you tube, …) constituindo-se o aluno como elemento central, convidado a
construir o seu conhecimento, e a quem se fornece feed back constante (Monteiro. et al. 2013). A técnica a utilizar
será sempre a que mais se adequa ao público-alvo e à matéria a tratar,
podendo-se fazer as combinações necessárias ao sucesso da aprendizagem. Como
implica a ação do aluno constantemente monitorizada e motivada, torna-se capaz
de vencer a inércia característica das salas de aula sonolentas. Este método
pode, então associar aulas expositivas a trabalhos de grupo, a exercícios ou
trabalhos online, ao uso de todos os
métodos considerados propícios a uma aprendizagem profícua numa determinada
situação. A adequação dos materiais e o papel do professor são de enorme
relevância. Nos casos em que recorre com frequência às TIC, este método acaba
por ser bem menos oneroso que os restantes. Assim, de acordo com Delors,
aprende-se a conhecer, a fazer, a conviver com os outros e a ser. Há, no
entanto, que respeitar o direito à diferença e que resguardar os valores
identitários.
sábado, 8 de novembro de 2014
As sociedades contemporâneas e os sistemas educativos
“Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes elétricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem”
Álvaro de Campos, “Ode Triunfal”
A contemporaneidade caracteriza-se pela evolução vertiginosa, a qual se opera a um ritmo alucinante, mais acelerado que o dos triunfos da técnica cantados na citação em epígrafe (início do século XX), e causadora de ainda maior perplexidade e fascínio.
A “sociedade do conhecimento” (Calle E Da Silva. 2008) destronou a sociedade industrial, pois o conhecimento tornou-se o motor do desenvolvimento dos países, consubstanciando qualquer estratégia de poder, em substituição das matérias-primas e do capital. A inovação decorrente da evolução das novas tecnologias da comunicação e da informação está na base desta transfiguração, a qual determinou a globalização.
Consequentemente, avolumaram-se as disparidades e assimetrias a nível económico e social, evidenciadas pela globalização, que tudo torna público e notório, mesmo o que anteriormente não seria notado. À intensificação da evolução, potenciada pelas mudanças no modo e no fluxo de comunicação nos países desenvolvidos, que permitem a articulação e a conjugação de esforços entre países e organizações, bem como uma maior rapidez na disseminação da informação, contrapõem-se as dificuldades dos que não possuem os requisitos básicos para integrar de forma plena esta sociedade global. Assim, há que considerar os pré-requisitos mencionados por de Calle e Da Silva (2008), referindo Mattelart (2002), a propósito da “democratização do conhecimento”, explicitando que é necessária uma “base” de “conhecimento e experiência” para que os indivíduos sejam capazes de receber o dito conhecimento.
Segundo Calle e Da Silva, referindo Callon, a inovação, por outro lado, não exclui a tradição, mas alimenta-se dela. A identidade e o sentido são, por isso, essenciais, principalmente quando se fala de educação.
A educação, na sociedade do conhecimento, é fator determinante e vital, implicando não apenas uma formação de base, mas a formação ao longo da vida, visto serem necessárias atualizações constantes para que se possa acompanhar o ritmo do desenvolvimento das sociedades, principalmente no que diz respeito às novas tecnologias e aos avanços das ciências.
Os sistemas educativos, como a etimologia da própria designação indica, têm como finalidade essencial o estabelecimento de relações, de laços.
Segundo Ramos (2007), a educação tem como primeiro objetivo “o desenvolvimento do ser humano na sua dimensão social”, sublinhando a relevância das vertentes tecnológica e científica.
Os sistemas educativos não se concebem, nos tempos que correm, divorciados da tecnologia, sob pena de a escola se tornar obsoleta. Assim, veja-se o desempenho de muitas universidades que são, devido às sinergias que desenvolvem, motores do conhecimento, trabalhando frequentemente em parcerias com instituições congéneres ou outras. E o poder decorre do conhecimento.
Constitui, por outro lado, preocupação relevante a questão da equidade, já que existem variáveis que não permitem a inclusão plena, quer das sociedades menos desenvolvidas, incapazes de utilizar as ferramentas científicas e tecnológicas com proficiência, quer do universo feminino, pois existem sociedades em que a educação é ainda vedada à mulher. O modelo educativo único, remanescente em algumas sociedades, funciona também como um constrangimento ao desenvolvimento pleno e harmonioso do indivíduo.
Os sistemas educativos, tendo como finalidade a formação do indivíduo e o seu desenvolvimento ao longo da vida (sabendo-se que devem ter como referência o mundo global e não apenas uma cidade ou um país), devem integrar a sociedade do conhecimento, nomeadamente no que se refere à utilização das novas tecnologias, facilitadoras da pesquisa e da difusão do conhecimento. Só assim potenciarão o desenvolvimento dos países e dos indivíduos enquanto elementos de um universo global.
No nosso país, de acordo com a lei de bases do sistema educativo português, este deverá ter em vista o desenvolvimento harmonioso do indivíduo, privilegiando a responsabilidade, a autonomia e a solidariedade e valorizando a dimensão do trabalho (Lei nº 49/2005, de 30 de agosto).
No documento em que se definem os quatro “pilares” da educação configurados por Delors, isto é, o aprender a conhecer (compreensão), aprender a fazer (agir sobre o meio), aprender a viver juntos (cooperação) e aprender a ser, de modo global, preconiza-se também o desenvolvimento do indivíduo em todas as vertentes.
Tendo, então, os sistemas educativos a finalidade de facilitar a integração dos indivíduos na sociedade do conhecimento, que é aquela em que todos vivemos, devem os métodos utilizados promover a autonomia na construção do saber, e a cooperação, no sentido em que a conjugação de esforços é sempre profícua e enriquecedora, não esquecendo o reforço das vertentes ética e moral, as quais, em princípio, estariam implícitas, mas que são, por vezes, relegadas para segundo plano.
Integrando o sistema, figuram, a par de professores e alunos, os pais e encarregados de educação, bem como a comunidade educativa, tendo sempre em linha de conta o contexto global.
As modificações e adaptações necessárias à criação de laços mais profundos entre o sistema educativo e a sociedade em que se enquadra está em processo de operacionalização, no que a Portugal diz respeito. A heterogeneidade dos intervenientes no processo leva a que este decorra de modos diversos. Existe ainda alguma relutância e falta de naturalidade na utilização das tecnologias da comunicação por parte de alguns professores, o que traz constrangimentos vários, os quais poderão ser ultrapassados através do trabalho cooperativo e da formação de docentes.
Em suma, o esforço a desenvolver pelos sistemas educativos para acompanhar a evolução social e tecnológica é significativo, principalmente se tivermos em conta que as medidas tomadas, no que à educação diz respeito, demoram consideravelmente a produzir o efeito pretendido.
Referências:
Calle, D.; A., G.; Da Silva, E. (2008). "Inovação no contexto da sociedade do conhecimento", in Revista TEXTOS de la CiberSociedad, Nº 8 - Temática Variada (Características da sociedade do conhecimento). http://www.cibersociedad.net/textos/articulo.php?art=160.
Ramos, C. (2007). Aspectos contextuais dos Sistemas Educativos. Lisboa: Universidade Aberta.
Delors,J., Al-Mufti, I., Amagi, I., Carneiro, R., Chung, F., Geremek, B., w tal (1998)- Educação Um Tesouro a Descobrir- Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. Porto: Edições ASA.
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